Girassol Vermelho

Não sei que forma acusa o emaranhado

Não sei que forma acusa o emaranhado
clarão do Sol atual sobre meus dedos
(esse suposto ponto
congênito da fuga),
nem por que brancas pias enxaguei
tonto do rosto os peixes
no mau verão da carne.
Há muito que a janela ficou muda,
que os braços trazem a distância à praia
do meu corpo indigesto às três da tarde,
alga residual na densa espuma.
Um pomo aberto e o vento
atrás da porta, o vento atrás da porta,
entre as ruas de baixo, entre vasilhas
vazias e o jornal do ano passado.
No fim da rua: a curva escura, eu sei
das sombras de impossíveis conjecturas,
cuja argila antiquíssima
respira dentro dos meus ossos que ardem.
Sei também das cabeças
rápidas entre antúrios e alamandas.
Sei do ocaso das ondas,
das asas espontâneas que desenham
o silêncio que excede o ouvido em ouro.
Mas dessas linhas ígneas,
dessa forma de rosa inominável,
serpente insone, eu digo, eu nada sei.
Pois é antes de tudo a força e o fogo.
É antes de qualquer palavra o mundo
(soberba mariposa à luz suspensa),
o fero amor do mundo.

O corpo habitável

I

De todas as paisagens,
a nenhuma:
casa talhada em frágil ossatura,
um rio condensado na medula.
Onde a terra embotada chora e murcha.
Onde, em guerra, chacina e morte lavram
meus pés imperturbáveis.
Aqui digo:
não digo, desfazendo no silêncio
a nitidez compacta disso tudo,
reduzindo em fumaça e pensamento
a brisa amarga que corrói a cor
das folhagens espessas.
Na cabeça,
adhaesit pavimento anima mea,
enquanto vou andando aonde vou,
contando os rostos que aparecem raros
flutuando no imenso turbilhão
feito negras fuligens.
E são pouco,
entre a mão que apedreja e a mão que afaga,
entre o som mais sutil e a trovoada,
entre a aflição na víscera e a vontade
de violinos que violem a ideia
de que somos, de fato,
muito pouco.
E enquanto aqui faz noite, pelas ruas
lentas de violento coração,
meus passos se sustêm no chão, meus olhos
curtidos na salmoura ardem, a boca
mirrada de palavras
diz: não diz,
um receptáculo despido e bruto,
embrulhado na noite, um sopro seco
que corta a pedra aguda nos espaços
entre as estrelas, dentro do vazio
de todos os vazios:
a paisagem.

 

II

Não há engano, a região é esta:
estou aqui, no ponto incognoscível,
preparando o jantar, contando vírgulas,
trazendo a culpa de quem sempre esquece,
entretido em conversas tão diversas
quanto o peso dos garfos e das taças,
revisitando o sal de certas carnes
quando o céu feito um tampo pesa baixo
e é preciso que eu diga qualquer coisa:
aqui, no ponto imperceptível, fluxo
avulso e inviolável, como a face
movediça da chuva sobre o asfalto,
como um rio delido sob o asfalto,
eu espero; com cordas e com dança,
com cantos e com tamborins espero,
sem pálpebras nem sono que me furte
pela noite que nasce atrás dos prédios,
no ponto de inflexão que faz a curva
para além da retina que me vê:

não duvide; sou eu quem você vê.

 

III

O corpo na cidade é como um átomo,
sempre evasivo, em movimento sempre,
um corpo mais vazio do que corpo,
corpo contínuo, corpo contingente,
onde começa o corpo, onde termina
(onde suponho a boca que me prende?),
o corpo na verdade não tem nome,
corpo-espaço cosmopolitamente,
um baque surdo, um carnaval de máscaras,
o corpo na verdade pulsa e geme,
inscrito nos resquícios de outra pele
cujo peso afinal não compreende –
nas vestes dessa minha anatomia,
o corpo na verdade é corpo ausente.

 

IV

Saturno surge
somatófago
com a sinergia de um gigante
através de sondas e pulsares
(multicromático)
de órbitas crepusculares
nas dobras do silêncio do meu quarto
na trajetória abrasiva do meu sono.
Vem colidindo
contra os outros astros, perfazendo
uma elipse excêntrica
até a civilidade concêntrica
dos meus pés, do ritmo
protocolar do meu relógio.
Quem
poderia adivinhar
seus olhos esfaimados
contra a escuridão,
esse deserto?

E se vem Saturno
é para a inércia que ele vem,
girassol sem talo, o totalizador
de mundos.
Alinhado à curva, o devorador
de corpos agregando
os pós originais,
espasmos na superfície
periférica da língua.
Mas meu silêncio é maior
que qualquer sombra de estrelas,
o que não digo é mais,
ó, minha incógnita morada.
De onde colho com violência o lírio
estrangeiro à luz de incêndios,
onde nascem nos espelhos circulares
as mãos multiplicadas.

Ah, Saturno
suposto através do teto
escuso do meu quarto.
Mas que venha
corpo contra corpo
no silêncio confuso da noite
inominável.

Ó minha incógnita morada.
 

Preparação

Olhos transpostos no espaço além dos olhos:
olhos que colhem com a pressa de quem sabe
que esta hora sabe a sangue e a água pura
a demora dos teus dedos redundantes,
e nessas mãos habitadas a leveza
de um punhado de libélulas translúcidas,
e o cuidado tão conciso com que esfazes
a mínima arquitetura das salsinhas
sobre a pedra à luz da pia, a clara pia
(o som que ela faz à brusca trança d’água),
pura espera, tempo que transpira vida
no sumo esquecido dos tomates, vida
que ressuma inteira a trêmula umidade
rubra dos tomates, boca aberta ao vento
o que escondes entre as palmas tão de luas,
calma mensurável nos teus olhos lácteos
e a certeza de que tudo tem seu tempo.

Censura

O que eu queria te dizer
sobre nós dois
mas não me lembro
(sobre este nome
claro entre nós dois)
mas que não digo (ainda)
mesmo que por um curto instante
através de dentes distraídos
e cativos pavões panópticos
nos assombros da varanda
(quantas luas indiscretas
na nossa adolescência)
que não saberia como
começar a entender
o que dizer sobre nós dois
pelos idos de agosto
pelas frestas da despensa
como um frio esquecido
por trás das conservas
(como eu queria te dizer
sobre nós dois).

Imanência

“Porque nada há encoberto que não haja de ser manifesto,
E nada se faz para ficar oculto, mas para ser descoberto”
Marcos, 4:22

Escuta: nada escapa da abrupta
escama das coisas: tudo chama
à voz de uma retina imediata,
lícita ao toque, como uma argila
ungida na branca confusão
das águas supérfluas, circulares:
uma voz que se vê corpo à palma
sempre manifesta e impossível
de um dia atual como este dia,
raiz toda ramo como agora
todo o claro e indelével devir:
um pássaro a pino, um rosto pasmo.

Concepção

Um sopro basta para colidirem peixes,
fazê-los luz à ígnea superfície da romã.
Um sopro apenas, e eis enredada
a criança em seu sono selvagem,
no ramo de sangue um casulo que queima.
Tão leve de mudos moinhos, por mãos simétricas,
roda à face ambígua de um eclipse
o peso de todos os espelhos,
a redundante estrutura do ovo.
Isto que se chama
o mundo.

Mareado

Hora tão imprópria a dos marulhos prófugos
dos movimentos das espumas inauditas
solapando as mínimas vértebras
quando a náusea rebenta à boca destilada
e emerge seca como as algas
de incontáveis pedregulhos
e o que se vê vacila em vagas
na linha violácea.

Em mim há dias de jardins velozes

Em mim há dias de jardins velozes
de luas púberes que em mim se sentem
carne constelada à ideia de um cardo
que se sente há dias
que em mim percorro
(ave desatenta do seu voo)
por gradações da rosa
e a perfeição da morte.

Em mim há dias que atravesso rápido
jardins famintos de futuras luas
feitas mãos incendiadas que se laçam
à ideia de um silêncio.
E já nem sinto mais
sob as plantas sonolentas dos meus pés
a terra como uma torre onde me alteio
(asa sem ciência de seu erro)
por florações confusas
e a sensação da luz.

Em mim como um súbito segredo.
Em mim como um jardim
por onde correm dias anos
vidas sem que eu veja um só dia
sólido como o sol que se desdobra
à ideia de um espelho.
Em mim há dias
sem predição de mim
além de mim.
E já nem sei da língua como um nome negro
que me cala senão a violenta
ondulação do corpo contra o agreste
sopro da paisagem que transponho
presto em mim como a noite acima da noite
como um jardim há dias.

Perda

A mão que dorme sobre o ventre
lembra a dor da floração, do esquecimento:
desenha círculos vazios no vazio,
recolhe o pó das porcelanas antiquíssimas,
calcula nos dedos os derradeiros dias,
até que limpe o rosto e apague a luz.

Já não faz rito esta carne jubilada.
Guarda, entre a palma e o toque,
a insistência insciente das nuvens dissonantes,
um sopro como uma raiz de fogo
em que os nomes se confundem
e ninguém é testemunha.

Mas cedo virá a manhã, cedo ainda
virá a manhã,
com sua feroz verdade,
evaporar os contornos inabitados
do silêncio.

Claro

do sol que me salga a boca
emaranhada um ramo só,
uma só língua que se prende
estranha à lúcida respiração
das pedras e dos prédios, restos
de ruídos em surdina
que o sonho liquefaz
na úmida estação

theeyepenumbra

Site dedicado à publicação de textos de natureza vária (contos, poemas, fragmentos) e que se inspira no macabro, na potencialidade lírica do terror, em paisagens e obras sugestivamente sombrias, no medo e no sobrenatural, entre outros. O site é uma colaboração entre Geraldo Cáffaro e Pedro Furtado, cuja produção poética encontra-se, respectivamente, em cromologiadosdias.blogspot.com e girassolvermelho.wordspress.com

Schiamachia

Nestor de Miranda