Girassol Vermelho

O romance

Um temporal lá fora e você
lê um romance
na única poltrona da sala.

Mas eu não eu leio
gênero diverso: eu leio
você que lê
o romance.

Meus olhos soletram
seus dedos seus olhos.
Eu passo palavra
por palavra
do seu nariz da sua barriga
ao respirar (o ritmo
pausado de quem lê)
a palma sobre a qual
repousa a pesada história.
Enquanto
a chuva rechaça
qualquer som que não o da chuva,
eu leio você
silenciosamente
na sala leio seus lugares
na face matizada seus desafios
nas cicatrizes dos cortes.
Leio o tempo em você
como um justo ladrão.

Lá fora recrudesce
o temporal.

Que história existe
por trás de quem
desenlaça na sala a história?
Quem é seu inimigo? Amante?
Que acontecerá depois? Qual
o desfecho?

E logo quando tento
ler em você
o que de mim é suposto
(talvez no título do livro que lê)
nem percebo quando
o temporal quebra as janelas
adentra a sala inunda
o assoalho
entre nós dois.

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Admiração

Naquele elevador
você estava vinho
você estava guerra
vamos destruir o domingo
gozar nossa libido
como um pássaro ferido
você estava fera
você estava afim
de que o fim chegasse enfim
apesar de todo o peso
que nos cai como um casaco
de chumbo estilizado
você estava impossível
você estava de morte
e eu fiz todo o possível
para subir nos seus ombros
e ter o seu porte
e ver com seus olhos
o mundo a alma o fogo
você estava ali
você estava alguém
com quem eu poderia
cometer o único crime
que jamais se comete
quando a porta se abriu

e você que estava
súbito se desfez
na trama anônima do cenário

Gradações

Mais do que ter é fazer.
Mais do que fazer é ser.

Menos que o arrojo, a coragem.
Menos que a coragem, a parcimônia.

Maior que a Lua discreta e estática
no canto veloz
da janela de um carro
é a vontade de contê-la
entre os limites da costela.
Menor que a Lua na opacidade
do vácuo é o olho
contundente de um gato.

Mais longe que casa, nós mesmos.
E a saudade, mais longe.

Mais leve que a tinta, a palavra.
E a ideia, mais leve.

Só a noite debaixo do meu nome
conserva sua inteireza, a noite
real, para a qual não existe
nenhuma gradação.

Na piscina

Quero meu pensamento claro,
tão claro
quanto o conteúdo desta piscina.

O calor me trouxe aqui, o calor,
a falta de mar
e meu pensamento confuso.

Um buraco cimentado
com muita água dentro: solução
incerta não qual me jogo
indecorosamente
de cabeça.

Na massa versátil da água,
escancaro meus olhos.
Asas desnudadas, meus braços,
e todo o pó do eclipse
do corpo se despregando
na pele caprichosa da água.

Do outro lado,
ressurjo limpo,
desabitado.
Mas carrego comigo na boca
na ardência discreta dos olhos
esse gosto
abrasivo
do cloro.

O tocador de oboé

Dos mais improváveis timbres
que a noite condensa –
o amor dos cães, a pressa da juventude,
a solidão dos suicidas –
emergiu, como um girassol de prata,
na superfície indistinta das paredes,
o som oblíquo de um oboé.

Vem de alguém
do prédio vizinho.
Até que toca bem.
Paro o que estou fazendo
(qualquer coisa sem importância)
e escuto
atento.

Tem qualquer inflexão
mais taciturna, parece
a solitária frase da Quinta.
Sem orquestra. Sem apoio.
Uma voz que corta
a custo a carne do silêncio.

Mas pode ser que quem o toca –
essa estranha figura
que se esgueira
por trás da precisão da melodia,
como a lembrança sórdida de uma lógica –
pode ser que esteja até feliz.
Ou quem sabe concentrada
na técnica dentro da técnica,
esquecida de si, esquecida de mim,
na ardente disciplina dos ares?

Na sustentação de uma única nota,
minha atenção consegue ler
a tensão do diafragma, a força do pulmão.

E meu sopro segue o sopro de quem toca
e nele se segura
firme até que o deixe
por uma memória qualquer.

Origami

Dobra-se a sombra
o semáforo a cicatriz
dobra-se a língua
a esquina
o nariz
em camelo
em cachoeira
em rocha
a dor que dobra
o sentido
à margem de toda sobra
como a palma
da mão se dobra
como uma cobra
sobre si
origami
como um mapa
para formar um mundo
uma face
uma casa

Sparagmós

Tanto,
tanta,
que me sinto despedaçar:

minha cabeça vai parar na Avenida Mar,
minhas mãos, puseram-nas no centro da cidade
e meus pés largaram por aí (não vi),
talvez sobre os trilhos do metrô, talvez
no parapeito
de algum terraço.

(Num estardalhaço, satisfeitas,
cantam as mênades invisíveis).

Feito um
transbordamento:
tudo o que sou
me excede.

Subterfúgio

Um caminho
(que não o caminho).

Um pretexto
(para não dizer o mesmo).

O voo contra o verso
(deus ex machina de segunda mão).

A destreza dos mais débeis
(o próprio caráter das águas, que contornam).

Porque, no início,
éramos precipício,
até que alguém
nos olhou e disse
palavras.

Confirmação de Cláudio

A vida toma a morte por um ato.
E como retomar
os assuntos incertos, as sombras da dúvida, o fato
de que sou mortal, tão inexplicavelmente
mortal, que talvez eu não o seja?

Alma revelada, mas não aliviada.
Eu assisti ao brilho do Sol
naquele momento, fui tomado
pelos dentes da segurança, o lar do ato,
o terrível ato
(o ato entre o ato e o ato)  –
a confirmação do fato
com tanta ironia, com tanta arte,
que ao te ver se erguer, mundo de todos,
meu mundo desmoronou à parte.

Finalidades

Para que fosse possível,
copas de árvores sangraram pássaros de abismo.

Para que fosse hoje,
há tanto antigamente repetido no porvir.

Para que fosse único,
fracionou-se as pupilas nas inúmeras manhãs.

Para que fosse meu,
minhas mãos nunca mais se fecharam sobre coisa alguma.

theeyepenumbra

Site dedicado à publicação de textos de natureza vária (contos, poemas, fragmentos) e que se inspira no macabro, na potencialidade lírica do terror, em paisagens e obras sugestivamente sombrias, no medo e no sobrenatural, entre outros. O site é uma colaboração entre Geraldo Cáffaro e Pedro Furtado, cuja produção poética encontra-se, respectivamente, em cromologiadosdias.blogspot.com e girassolvermelho.wordspress.com

Schiamachia

Nestor de Miranda