Girassol Vermelho

Satélites

É pelo visto o vazio
das bocas que se tocam
o que chamamos Amor.

Não o toque em si
– fugidia marca-d’água –
mas o denso e exato desvio,
dança elétrica e distante
com que nos orbitamos
até a inescapável colisão.

De ocasião II

Paisagem mais clara de casas e palmas,
casas de mil janelas, palmas de mil metros
que atravessam o antigo cinza das ruas atuais,
ruas que atravessam meu pensamento cinza
na lembrança líquida das águas atuais,
moldura hodierna dos mares antigos.

De ocasião

Haverá sempre tempo para o luto,
haverá tempo para a negra rima:
baixaram fundo seu caixão enxuto,
depois puseram muita terra em cima.

Por isso eu fico um pouco mais na grama,
por isso eu me demoro um pouco mais
ao sol: pois resta, extinto o que se ama,
um silêncio, um espanto e nada mais.

Por um pouco de silêncio

Impossível dizer
o que se encontra evidente.
Como tocar a superfície,
o pomo ausente?
Estendo a mão
mas o que toco
não.
Porque o que me mata
não.
Por que
o quê?

Não há mito:
eis
o mito.

Parecenças

Não aquele dia
mas uma história
que se pareça
com aquele dia.

Não aquele rosto
mas uma multidão
que me lembre
daquele rosto.

Não aquela casa
mas um mundo
que me transporte
praquela casa.

Sem título

Há tanto silêncio
agora
que dentro de mim
cresceu
um crisântemo.

Íntimo

O que se guarda na gaveta:
meias, recibos, fotografias,
a agenda, a arma, a aliança,
poemas escritos à pressa,
a correspondência decisiva
(nunca selada e enviada),
unhas cortadas (restos de ti
cobertos pela névoa pretérita),
a culpa, a culpa, a culpa,
rios, rodovias, terremotos,
os ossos herdados de um deus,
o sangrento coração do mundo.

Lamentação

Cantam-se os reis, os deuses, o Amor,
canta-se a morta poesia que ressurge
vagando em pontos de ônibus, aeroportos,
meio deslumbrada, meio convencida,
mas no silencioso e lúcido incêndio,
que será de ti, banguê,
que será de mim quando eu me for?

Nenhuma palavra é lavrada sobre nós.
Teria havido tempo para tal palavra?
Quem porá contra a morte resistência?
Minhas palavras enfadam, e já não posso
conter minhas palavras. Quem poderia?
Que será de mim, meu Deus,
que será de mim quando eu me for?

Enleio

na madrugada do meu Amor eu colho o mar
eu colho crimes avenidas pelo corpo eu colho
com olhos escravos à luz dos mezaninos
cavalos furta-cor na noite autofágica
são teatros nascidos para a minha morte:
nada minha dúvida esta espuma
verde voo precipitado contra o punho
constelado nas pedras antiquíssimas
um longo ramo branco que te trago
porque não trago arautos nem um guia
nesta terra estranha – e se abro minhas mãos
para o fogo e a fuga é com certeza o mundo
claro efeito frágil arquitetura especular
menos o que eu digo entre granizos
e um risco infinito no rosto inexorável

Não sei que forma acusa o emaranhado

Não sei que forma acusa o emaranhado
clarão do Sol atual sobre meus dedos
(esse suposto ponto
congênito da fuga),
nem por que brancas pias enxaguei
tonto do rosto os peixes
no mau verão da carne.
Há muito que a janela ficou muda,
que os braços trazem a distância à praia
do meu corpo indigesto às três da tarde,
alga residual na densa espuma.
Um pomo aberto e o vento
atrás da porta, o vento atrás da porta,
entre as ruas de baixo, entre vasilhas
vazias e o jornal do ano passado.
No fim da rua: a curva escura, eu sei
das sombras de impossíveis conjecturas,
cuja argila antiquíssima
respira dentro dos meus ossos que ardem.
Sei também das cabeças
rápidas entre antúrios e alamandas.
Sei do ocaso das ondas,
das asas espontâneas que desenham
o silêncio que excede o ouvido em ouro.
Mas dessas linhas ígneas,
dessa forma de rosa inominável,
serpente insone, eu digo, eu nada sei.
Pois é antes de tudo a força e o fogo.
É antes de qualquer palavra o mundo
(soberba mariposa à luz suspensa),
o fero amor do mundo.

theeyepenumbra

Site dedicado à publicação de textos de natureza vária (contos, poemas, fragmentos) e que se inspira no macabro, na potencialidade lírica do terror, em paisagens e obras sugestivamente sombrias, no medo e no sobrenatural, entre outros. O site é uma colaboração entre Geraldo Cáffaro e Pedro Furtado, cuja produção poética encontra-se, respectivamente, em cromologiadosdias.blogspot.com e girassolvermelho.wordspress.com

Schiamachia

Nestor de Miranda